A beleza dos diálogos em The Witcher 3 Escrito por @bfcavalcante em

Pessoas falam sobre sexo. Elas também falam errado, usam de gírias, palavrões e muitas vezes o que sai de suas bocas não faz muito sentido. Se considerando o mundo de fantasia medieval onde se passa The Witcher 3, isso tudo só se multiplica.

Muito da história se passa em áreas mais rurais povoadas pelos camponeses, onde muitos não foram sequer letrados e nem tiveram acesso a muitos jrpgs livros e conteúdos similares. É curioso como não parece mais estranho quando jogamos aqueles tantos RPGs em que todos os habitantes de um vilarejo falam um inglês perfeito, sem gírias, palavrões, na maioria das vezes com informações pertinentes à sua missão e sem desviar do assunto ou discutir assuntos cotidianos com esse estranho (sim, esse é você) que chega fazendo perguntas – seja sobre a localização de um velho mago que supostamente passou por aquele lugar, um cavaleiro negro que raptou uma princesa ou a localização de algum tesouro antigo. É como se todos fossem apenas avatares de uma inteligência única, e que estivesse ali só para você.

Créditos da imagem para o meu amigo @penpas!

Prova de que a tradução para PT-BR não deixou a desejar. Créditos da imagem para o meu amigo @penpas!

Mas em alguns jogos isso não acontece. The Witcher 3, novo título da CD Projekt Red, é um desses. E como isso é bom! Você percebe a diferença de sotaque entre regiões, assimila novas gírias e expressões e, mais importante, sente que cada pessoa que você interage é diferente, e que o lugar onde elas habitam afeta o seu discurso, e a sua personalidade – assim como na vida real. A sensação é que os diálogos são mais honestos.

Uma dublagem ruim poderia tornar esse texto algo artificial, quase bobo. Tipo quando algum programa de TV tenta criar um diálogo “natural” entre dois jovens fazendo uso de gírias, mas com a entonação e fluidez da fala completamente erradas, criando uma interação bizonha. Felizmente, não é o caso. O trabalho de voz está excelente, e ainda conta com a participação de Tywin Lannister Charles Dance como o Imperador Emhyr.

De vez em quando alguém resolve ignorar parcialmente sua pergunta e começa a falar sobre como as novas prostitutas do bordel fazem coisas que jamais foram feitas naquela (palavrão) de cidade. Ou então eles podem reclamar que os (palavrões) lobos estão matando suas galinhas, ou que todas essas guerras que são travadas entre os mais poderosos reinos não fazem tanta diferença para eles – no final das contas, os impostos serão pagos do mesmo jeito. Em resumo, as pessoas falam sobre o que mais importa nas suas vidas, e não na sua (jogador).

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Geralt precisa se esforçar ao máximo para extrair informações valiosas dos camponeses

Outro aspecto muito interessante é como as pessoas reagem à algumas entidades características do mundo de The Witcher 3. Não existem muitas palavras bonitas para as feiticeiras, a não ser quando vamos para algumas áreas mais distantes em que alguma já estabeleceu residência e acabou por ajudar os vizinhos. Muitos demonstram medo delas, enquanto outros já as enxergam com um quê de fascinação.

“She was dressed all black and white, If not for her tits you’d think she was a beached orca!” – Um habitante de Skellige, ao ser perguntado sobre Yennefer.

Já os witchers despertam um espectro ainda mais amplo de emoções. Alguns te vêem somente como alguém cujo trabalho é exterminar monstros. Assim, daquela mesma forma como falamos com os funcionários de uma empresa de extermínio de demônios baratas (voadoras). Outros consideram você quase um monstro, possivelmente por várias histórias que ouviram sobre o processo de treinamento e mutações pelas quais passam os witchers. Também existem aqueles que te tratam como alguém que logo será obsoleto – a humanidade irá sobrepujar os monstros e os witchers serão só uma lembrança da um passado bárbaro.

E todos esses sentimentos são transmitidos – algumas vezes de forma sutil, outras nem tanto – pela forma como cada pessoa se expressa no vasto mundo do jogo.

É como se todos fossem apenas avatares de uma inteligência única, e que estivesse ali só para você.

Ao dar identidade aos NPCs e ao fazê-los não existirem somente para lhe servir, The Witcher 3 passa a distinta sensação de que estamos mesmo em um outro mundo, similar ao nosso em muitos aspectos, mas muito diferente em tantos outros.

E quem não gostaria de visitar outros mundos? Fazemos isso em outras mídias, mas o que torna os jogos eletrônicos tão especiais é que temos um papel ativo nessas visitas – não estamos só como observadores. Em jogos onde tudo parece ter sido feito só para você, temos a sensação de que estamos vivenciando uma história. Porém, quando nós não somos o centro de tudo o que acontece e as pessoas parecem ter outras preocupações que não relacionadas com os seus objetivos, sentimos que somos parte daquele universo, quase como se estivéssemos vivendo uma vida dupla quando adentramos nele. Acrescente algumas horas de imersão jogo nisso, e você estará convencido de que, durante aqueles preciosos momentos em que está jogando, você é Geralt de Rivia.

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Bruno Cavalcante

Co-fundador da Alvanista e um grande fã da cultura oriental. Aprendeu a gostar de jogos eletrônicos com Super Mario Bros., teve seu primeiro amor com Shining Force II e viu que games era sua paixão quando jogou Chrono Trigger pela primeira vez. Acredita que Super Bomberman 4 deveria ser modalidade olímpica.

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