Criticar tudo não nos torna mais inteligentes Escrito por @Katiucha em

– Cê viu que f*** aquele gameplay de Uncharted 4? Esse jogo vai ser LINDO! A Naughty Dog se garante demais.

– É muito fácil ficar bonito quando você é uma empresa que não faz jogos, faz filmes.

– Cara, eu amei Ni No Kuni. Que jogo incrível e emocionante!

É… Fora os inúmeros pequenos erros mecânicos, ele é um jogo muito bom. Mas dava pra ser melhor.

– Mal posso esperar pelo novo Zelda. Tudo que mostraram me empolgou

– Não achei isso tudo. Como sempre, os fãs da Nintendo se contentam com migalhas

Olhando para estes diálogos não tão fictícios assim, dois pensamentos me vêm instantaneamente: 1. Como conversas deste tipo são comuns; 2. Como essa sensação de ser constantemente rebatido com com o lado negativo das coisas é, simplesmente, um saco. Tendo estas duas coisas em mente, é quase impossível não parar para me perguntar:

Por que nos sentimos na obrigação de criticar tudo?

Posso estar enganada mas, atualmente, vejo uma tendência à insatisfação crônica em vários dos grupos com os quais convivo, mas os fãs de jogos eletrônicos são, possivelmente, os que mais se destacam nesse aspecto. É impressionante ver como assuntos negativos empolgam e movimentam as multidões no meio gamer, onde comentários destrutivos, agressivos ou impacientes são frequentemente vistos como engraçados e, em grande parte, encorajados com um monte de upvotes ou curtidas.

Em uma cultura tão sedenta pela oportunidade de criticar, muitas vezes como forma de validação da própria inteligência e sagacidade, não é à toa que a sede pela oportunidade de falar seja tão grande quando o assunto é:

  • Eleger qual foi o pior jogo do ano/mês/empresa/plataforma;
  • Por que tal site de games é uma piada e como “eu faria melhor”;
  • Como empresa tal só comete erros e merece ir à falência;
  • Como os desenvolvedores de jogo tal devem ser as pessoas mais burras e incompetentes do mundo;
  • Como aquele GOTY, na verdade, tem vários problemas que “os fanboys não enxergam”;

A negatividade parece ser tão celebrada que, muitas vezes, quando alguém não parece sentir o prazer imenso que aquilo pode proporcionar, a pessoa é vista com estranheza e apontada como “boazinha demais”, “fanboy cego” ou “não entendedor do assunto”.

badgame

Ken Levine: criador de (nada menos que) Bioshock, badass, sex symbol e gente boa. Ele não vê valor nem sentido no entusiasmo para escolher qual foi o pior jogo do ano. Que tal escolher não pisar em cima do fruto do trabalho árduo de alguém?

O que não percebemos é que, muitas vezes, estamos sendo realmente cruéis e injustos. Anthony Burch, ex-redator e crítico do Destructoid e atual pessoa-que-realmente-trabalha-no-desenvolvimento-de-jogos-e-sabe-todas-as-dificuldades-que-existem-ali, escreveu sobre como ele sentia prazer em absolutamente destruir alguns dos jogos que não gostava, só pra provar que ele era mais inteligente que seus desenvolvedores e, agora que ele realmente vê como as coisas funcionam, reconhece que não custava nada ele ter procurado criticar de maneira educada, sendo mais compreensivo e (por que não?) um pouco menos escroto.

Quando comento que, aqui na Ivalice nós preferimos não focar no lado negativo da indústria, muitas vezes a reação é de estranheza: “Mas vocês não falariam mal nem daquele jogo horrível?”. Olha, provavelmente não. E não é porque somos obrigados a não falar mal de algo, porque não vemos defeitos nas coisas ou porque achamos que críticas são proibidas. É simplesmente porque já tem gente demais falando mal do jogo e não vemos razão em dedicar longas horas das nossas vidas polindo um artigo para chover no molhado falando mal de algo, só para entrar no clube da “crítica especializada que jamais deixaria este erro passar desapercebido”.

Veja bem, isto não quer dizer que eu ache que críticas não são importantes ou nunca devem ser feitas. O que eu não acho é que precisamos fazer disto uma fonte de prazer ou um esporte olímpico.

Os esnobes dos defeitos

Nada é perfeito. Tudo tem defeitos. Até Chrono Trigger. Até (por mais que me doa) Final Fantasy Tactics. Mas será mesmo necessário que, pra mostrar que é inteligente e que é um ~videogames connoisseur~, algumas pessoas sintam necessidade de interromper alguém que fala que adora jogo X , para fazer um comentário do tipo “É, realmente, um jogo muito bom. Mas ele tem defeitos muito claros de desenvolvimento. Muito claros mesmo. Eu poderia enumerar vários”?

Ouvir coisas desse tipo me faz entrar em modo automático de sarcasmo e pensar coisas como “Oh, perdão pela minha insolência. Não sabia que estava na presença da magnífica autoridade em jogos eletrônicos que, claramente, faria um trabalho tão melhor do que os desenvolvedores”.

…achar defeitos em absolutamente tudo e sentir a necessidade de “ensinar” isto a todos ao seu redor, não faz de você alguém que consegue “ver além”. Não faz de você alguém mais culto. Faz de você um chato.

É irônico pensar como que jogos muito bons, sucesso de crítica, vendas, público e que até a própria pessoa acha muito bons, como The Last of Us e Bioshock Infinite, também não estão a salvo. Sempre vai haver um comentário como “É bom, mas… [insira aqui algum defeito que não compromete a qualidade do jogo dentro do que ele se propõe]”.

“COMO ASSIM você gostou daquele jogo? Você não viu esta minha lista de 12054 erros cometidos pelos desenvolvedores?”

Alguém que não olha para um jogo procurando falhas de desenvolvimento ou de mecânica, não vai ter muito o que tirar de algo assim ou saber como levar essa conversa adiante. Digo isto porque eu, pessoalmente, não vejo valor em investir meu tempo vendo defeitos não-óbvios em jogos. Se eles estão lá, mas não comprometem minha experiência como jogadora, sem problemas. Tudo “poderia ser melhor”. Por isto, não é algo que vá me fazer mais feliz ou mais realizada.

É preciso saber escolher seu público e não forçar este tipo de assunto, constantemente, quando não está sendo legal pra quase ninguém além do próprio crítico. Reclamar ou achar defeitos em absolutamente tudo e sentir a necessidade de “ensinar” isto a todos ao seu redor, não faz de você alguém que consegue “ver além”. Não faz de você alguém mais culto. Faz de você um chato.

Mas nem sempre

Reclamar não é proibido. Reclamações e críticas construtivas são necessárias à evolução de qualquer coisa. Colhemos hoje os deliciosos frutos de várias reclamações feitas ao longo dos tempos, como os DLCs gratuitos de correções de bugs, a opção de um sistema de batalha mais complexo em Dragon Age Inquisition, ou até a revisão por parte da Microsoft de todas as limitações insanas impostas no anúncio do XBOX One.

A questão não é essa. A questão é que desejar que a Ubisoft vá à falência ou sair gritando aos quatro ventos que ela é a pior empresa de jogos do mundo e que todos os desenvolvedores de Assassin’s Creed: Unity são retardados e merecem a morte, definitivamente não é a mesma coisa de dizer que achou o título bem ruim, não só pelos bugs (que foram corrigidos), mas porque as missões parecem repetitivas e não atenderam às suas expectativas como jogador.

Além disto, não custa nada parar para pensar se era mesmo necessário aquele comentário cretino sobre os-erros-imperdoáveis-do-jogo-que-foi-aclamado com tom de quem não os cometeria, mesmo sem saber como é a verdade nua e crua do desenvolvimento de jogos AAA.

Sei que isto pode vir como um choque pra várias pessoas, mas é possível enxergar pontos negativos, dar de ombros e, ainda assim, se divertir bastante com uma coisa. Um jogo não precisa ser perfeito pra ser bom, ou mesmo um dos seus favoritos. Assim como não precisa ser execrado por cada erro, mesmo que ele seja, no geral, ruim.

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Katiucha Barcelos

Exemplo máximo de pessoa que atira melhor na vida real do que em jogos de FPS e eterna entusiasta de RPGs (principalmente os japoneses). Feminista feliz e fã incondicional de Mulan. É perdidamente apaixonada por jogos de tática e sonha em ser paga para assistir vídeos de gatos o dia inteiro.

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