Heróis também sentem medo Escrito por @Katiucha em

Quando criança, naturalmente, eu queria ser invencível. Queria acordar da noite pro dia com superpoderes, só pra chegar no colégio e quebrar a cara das pessoas que falavam que eu e meus amigos éramos [insira xingamento humilhante aqui]. Não bastava apenas vencer a briga. Eu queria segurar os murros dessas pessoas sem esforço, rir da tentativa delas de me atingir e olhar friamente nos seus olhos quando percebessem que eu era infinitamente superior e, portanto, inatingível.

Spoiler: meus poderes nunca chegaram e eu tive que aprender, na marra, que ser frio e invencível é algo bem utópico.

Por que nos importamos com quem não se importa?

Tendo crescido rodeada por JRPGs (e levando em consideração que a minha infância foi a época de ouro do Playstation), é compreensível que eu me inspirasse em personagens com atitude profundamente blasé, que não se importavam com outras pessoas, escondiam seus sentimentos e fraquezas tão bem que pareciam robôs e, ainda por cima, eram super fortes, talentosos, promissores e admiráveis (ah, e bonitos).

Um ideal que, nem preciso dizer, é improvável que eu conseguisse alcançar.

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Ninguém aqui tem tempo para os seus sentimentos.

É curioso pensar sobre como o estereótipo do herói sem sentimentos construiu essa idéia maluca de que não se importar com nada é o máximo e que os fortes de verdade são aqueles frios e distantes que muito raramente demonstram qualquer traço de humanidade. Eu realmente achava que estes eram os verdadeiros protagonistas de histórias que marcam gerações.

Atualmente, eu continuo adorando os mesmos personagens de antes. A diferença é que eu sei que muito disso se deve à nostalgia e ao carinho que eu tenho por eles como companheiros de infância. Este tipo de arquétipo de personalidade, provavelmente, não me conquistaria do mesmo jeito. Isto porque, de repente, este tipo de fórmula começou a funcionar cada vez menos para mim.

O que nos torna humanos

Com o passar dos anos fui percebendo que meu gosto para personagens estava mudando em uma direção bem clara: cada vez mais eu gostava de histórias de pessoas com as quais eu conseguia me identificar (e não só idolatrar). Protagonistas mais reais, mais “humanos”, eram aqueles que sempre acabavam me encantando. Personagens que realmente têm medo, ciúme, incerteza, insegurança… Que reagem a certas coisas como, talvez, eu reagisse.

Por mais que figuras consagradas, como meu eterno crush Squall, ainda morassem no meu coração, pouquíssimo do que ele e outros heróis padrões eram me refletiam como pessoa. Eu não conseguiria carregar uma espada gigantesca, eu não era particularmente forte, eu não era fria ou desapegada de todos ao meu redor e nunca agiria normalmente se fizessem um corte de quase um palmo meu rosto com uma espada, em um treino no colégio.

É assim que eu espero que a maioria das pessoas reaja ao descobrir que têm super poderes.

Se algum dia eu acordasse com os superpoderes que eu tanto sonhava na infância, provavelmente me sentiria assim. Bem diferente do plano original, mas bem mais fácil de imaginar na realidade.

Felizmente, nem só de perfeição e frieza com camadas bem internas de sentimento se fazem personagens. E é aí que mora minha felicidade atual: nos heróis menos exagerados.

Um exemplo brilhante de protagonista cheio de falhas humanas e com um comportamento bem crível é o Oliver, do inesquecível Ni No Kuni. Logo no começo do jogo sua mãe vem a falecer, deixando Ollie, um garotinho como outro qualquer, órfão.

Enquanto outros personagens poderiam fingir que não se importam e, muito mais tarde, demonstrar alguma migalha de dor em um diálogo com seu par romântico, o que acontece é que Oliver passa dias isolado, sem conseguir comer, chorando copiosamente pela perda da mãe, pelo sentimento de abandono, solidão, desamparo e culpa. Quando convidado para salvar o mundo (pelo sidekick mais carismático dos últimos anos), ele não se anima. Isto porque a dor do luto tira dele o entusiasmo que se espera de uma criança que descobriu ter poderes mágicos.

A mágica está em pensar que coisas extraordinárias podem acontecer com pessoas ordinárias.

Demonstrar toda a dor que você sente não faz da sua personalidade menos heróica, menos admirável. Pelo contrário: muito me anima ver um personagem central reagindo de um jeito tão honesto. Aquele ali poderia ser eu. Mesmo com todas as minhas falhas, mesmo não tendo passado por algo extraordinário antes daquilo, mesmo não tendo me destacado particularmente em nada nem tendo um passado misterioso do qual eu não me lembro. A mágica está justamente em pensar que coisas extraordinárias podem acontecer com pessoas ordinárias.

Oliver de Ni No Kuni: se importar e sentir uma dor profunda pela perda de quem amamos não nos tona menos nobres.

A era de ouro da vulnerabilidade

Não é a toa que um verdadeiro ícone como a Lara Croft passou por um reboot tão drástico, se tornando não apenas uma personagem com roupas mais apropriadas pro papel, mas também uma heroína cheia de sentimentos. Quem imaginaria a intocável badass sex symbol Lara chorando em situações desesperadoras para nós, mortais?

O reboot de Tomb Raider tomou esta direção porque a fórmula, atualmente, funciona muito bem. As pessoas têm demonstrado mais interesse em personagens que não agem como robôs, nem em movimentos, nem em ações.

Para aproximar personagens eletrônicos ainda mais da realidade, mostrá-los reagindo como nós esperamos que alguém naquela situação reaja, é um recurso talvez ainda mais forte do que um frame rate alto, movimentos fluidos ou gráficos ultra realistas.

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Mais vulnerável, mais humana e ainda mais inspiradora.

A entrevista à Kotaku de um fã da franquia que diz que a nova Lara Croft o inspirou a renovar a sua vida, por ter mostrado que era possível agir com coragem, mesmo enquanto se tem medo, mostra como estes símbolos mais próximos da realidade funcionam brilhantemente.

Não é porque um herói não é aquele avatar obsoleto da justiça e da coragem inabalável, que ele deixa de ser magnífico. Esta nova leva de símbolos continua a nos inspirar, mas de um jeito diferente. É como se, neste momento, ao invés de observar o seu ídolo no topo da montanha mais alta, intocável, fosse um pouco mais fácil se imaginar ombro a ombro com ele, seguindo juntos em uma jornada onde os dois se inspiram a ser melhores.

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Katiucha Barcelos

Exemplo máximo de pessoa que atira melhor na vida real do que em jogos de FPS e eterna entusiasta de RPGs (principalmente os japoneses). Feminista feliz e fã incondicional de Mulan. É perdidamente apaixonada por jogos de tática e sonha em ser paga para assistir vídeos de gatos o dia inteiro.

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