Jogar no easy não faz de você um incompetente Escrito por @Katiucha em

Eu odeio jogos de tiro. Com todas as minhas forças. A micro parcela de semi-simpatia que me resta em relação ao gênero é quase completamente alocada em TPS, sendo os FPS o tipo de jogo que eu mais rejeito. É triste, mas é verdade.

Talvez o principal motivo pra tanto rancor no meu coraçãozinho seja o fato de eu ser absoluta e inegavelmente incompetente na mecânica do gênero. Para a filha de um ex-atirador olímpico isto é, no mínimo, uma vergonha. Acontece que eu não escolhi ser assim e, na vida, você deve saber reconhecer suas forças e suas fraquezas.

Mas a verdadeira tristeza é que, por conta desse meu problema, eu acabei perdendo muitos jogos excepcionais apenas porque, para muitos de nós, só existem duas opções válidas: ou joga “pra valer” no hard, ou melhor nem jogar!

Lembro até hoje das dezenas de vezes que meu irmão me pediu até pelo amor de Deus para que eu desse uma chance a Bioshock apesar de ser um FPS. Tantos foram os anos que eu passei sem aproveitar uma das minhas histórias favoritas, pela certeza da frustração de ter que passar por dezenas de batalhas difíceis em um sistema que eu não gosto (claro que isto foi antes de eu descobrir as maravilhas da wrench).

Reação dos meus amigos quando eu falo que vou jogar algo no easy.

Recentemente estava escutando um episódio do Iradex Podcast onde o Gabriel Franklin fala que amou o livro de Mass Effect, mas nunca jogou os títulos da franquia porque rejeita jogos de tiro. Que desperdício… Quem aí já jogou ME sabe que os combates não são, nem de longe, o ponto central do jogo. Ele é muito mais um RPG do que um shooter e tem uma das histórias de ficção científica mais bem construídas dos últimos anos.

É preciso entender que nem todo mundo aproveita a experiência de um jogo da mesma maneira que você.

É triste pensar que existem pessoas que amam histórias bem escritas, que jogam vídeo game, que adoram ficção científica e que nunca jogaram Mass fucking Effect por conta de uma rejeição que poderia ser resolvida, em grande parte, com um minúsculo ajuste: colocando o jogo no modo casual. Assim, as batalhas seriam bem mais curtas e fáceis, enquanto mais um futuro fã apaixonado poderia escolher se focar apenas nos diálogos, escolhas e roteiro sensacional do jogo.

Uma questão de prioridade

Passaram-se muitos anos até eu perceber que, apesar de ser rodeada por dezenas de amigos que amam jogos desse tipo no super ultra hard, eu não sou obrigada passar pela agonia de morrer 20x em um chefão pra exercitar habilidades que eu não priorizo, em um gênero que eu não curto, dedicando várias horas da minha vida a repetir batalhas que não quero, só pra não perder uma boa história.

Quando eu percebo que dediquei as minhas preciosas duas horas de tempo livre a batalhas frustrantes de um gênero que eu não gosto.

Aí, normalmente, entra o argumento compreensível do realismo ou da imersão, como quando falam que é difícil e angustiante tentar sobreviver em um contexto de guerra, pós-apocalipse ou perseguição, então as batalhas do jogo DEVEM SER difíceis e angustiantes. Mas é preciso entender que nem todo mundo aproveita a experiência de um jogo da mesma maneira que você.

Quase sempre jogo meus gêneros favoritos nos modos mais difíceis e, se possível, com morte permanente. Eu poderia usar o mesmo argumento e dizer que, na guerra, a tática tem que ser precisa e é inevitável perder alguns soldados no caminho para a vitória. Mas eu entendo completamente que, como pra mim foi sensacional morrer mil vezes nas três primeiras batalhas de Fire Emblem: Awakening no Lunatic mode até encontrar a combinação correta de movimentos, pra outras pessoas isso pode ser frustrante, irritante e completamente desnecessário.

DeusX

Deus Ex: Human Revolution reconhece, nos próprios modos de dificuldade, que algumas pessoas estão ali mais pela história do que pelo desafio da batalha.

Não é questão de se recusar a encarar um desafio ou de ser absolutamente incompetente. É questão de prioridade: cada um se dedica àquilo que considera relevante. E se pessoa X não gostar daquele estilo de batalha e preferir não ter que se dedicar a ele? E se pessoa Y tiver um emprego, um filho pra cuidar, mil coisas pra fazer e decidir que escolher o caminho mais fácil e rápido naquele jogo parece a melhor opção pra aproveitar o tempo curto?

A beleza do meio termo

Os super hardcore gamers que me perdoem, mas na batalha em preto e branco de jogar no hard vs. não jogar de jeito nenhum, eu orgulhosamente escolho o meio termo. Até porque, nas palavras do meu brother Obi Wan Kenobi, “only a Sith deals in absolutes”.

Em um mundo onde temos cada vez mais opções e cada vez menos tempo pra aproveitá-las com calma é compreensível que, muitas vezes, escolhamos os caminhos mais convenientes. Não tem nada de errado com isso.

Admiro bastante as pessoas que sempre escolhem jogar tudo nas dificuldades mais elevadas, mas eu não sou uma delas. Prefiro mil vezes dedicar meu tempo e esforço para jogos de gêneros que eu amo incondicionalmente, sem ter que abrir mão de aproveitar aspectos maravilhosos de títulos que eu não jogaria normalmente.

Como eu me sinto jogando FPS no easy: not even sorry.

Para todos aqueles que já deixaram passar títulos sensacionais por sentirem obrigação de jogar em um modo mais difícil e acabaram desistindo por falta de tempo, de habilidade, por ser novo nesse mundo ou qualquer que seja o motivo, fica a dica: largue mão do preconceito e, se for o caso, jogue no easy!

E se vocês tiverem boas indicações de shooters com boas histórias que eu posso ter deixado passar por conta do meu preconceito com o gênero, comentem aqui em baixo e me falem se eu vou perder muito do roteiro se escolher jogar nos modos mais fáceis.

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Katiucha Barcelos

Exemplo máximo de pessoa que atira melhor na vida real do que em jogos de FPS e eterna entusiasta de RPGs (principalmente os japoneses). Feminista feliz e fã incondicional de Mulan. É perdidamente apaixonada por jogos de tática e sonha em ser paga para assistir vídeos de gatos o dia inteiro.

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