League of Legends: a vida de um novato em um mar de smurfs Escrito por @Katiucha em

Com o final de mais um mundial de League of Legends e o anúncio da maior atualização do jogo desde seu lançamento, esta é a hora de amigos legais convidarem seus outros amigos legais pra jogar o MOBA com a desculpa esfarrapada de que “com a atualização nova ninguém sabe mais de nada. É o momento perfeito pra começar”.

Da série “promessas vazias de amigos”: a gente deveria jogar LoL! Seria irado!

Tudo fica bem até você passar do nível 6 ou resolver “se divertir” em uma partida de PVP sozinho quando, ao cometer um erro, é esculhambado por todo mundo do time (supostamente de jogadores no mesmo nível que você) e percebe que caiu no pior pesadelo de um novato: uma partida cheia de contas smurf.

Contas Smurf: o décimo círculo do inferno de Dante

Pra quem não sabe, as chamadas “contas smurf” são contas novas de players antigos que, no caso de League of Legends, provavelmente já eram ranqueados. Resumindo, é a conta de um jogador que está com nível baixo e jogando com iniciantes mas que definitivamente não é um iniciante.

Veja bem, eu adoro LoL. Assisto os campeonatos, sou fã de carteirinha da Riot, que é uma inspiração em tantos sentidos, mas quando resolvi jogar pela primeira vez, acabei sendo mais uma da multidão de jogadores a ser expulsa (muito) prematuramente do jogo pela negatividade da comunidade. Não é à toa que os maus tratos que players têm que engolir a cada partida acabaram se tornando um dos aspectos mais conhecidos de League.

A parte mais triste é que isso é extremamente injusto, já que o jogo é sensacional e extremamente bem cuidado por seus criadores, que sempre procuram agradar a fanbase (e não me venham com essa de que querem agradar pra vender, porque é óbvio. Todo mundo quer vender, mas nem todo mundo faz tanta coisa bacana assim). Mas também é um jogo complexo, em que novatos quase sempre vão precisar falhar para aprender, seja por falta de habilidade, que é conseguida com muito tempo de prática, ou por desconhecimento de detalhes do jogo, que é bastante complicado e exige alguma experiência.

SMUR

Por que tantos players rankeados que fazem contas novas são tão cruéis com iniciantes?

Bom, recentemente, eu decidi tentar mais uma vez, arrastando comigo para este inferno uma outra pessoa que nunca tinha sucumbido à tentação de experimentar o jogo. Resultado: ficou claro pra mim que as exigências com novos players começam cada vez mais cedo e são cada vez mais cruéis.

Até acredito que algumas delas possam acontecer de maneira inocente mas, sendo assim, vale lembrar a quem esqueceu de como é ser novato que alguém que acabou de começar não sabe nem o que significa “GG“, quanto mas o que querem dizer quando perguntam por que ele “não foi dragão quando o ADC pediu”.

Estando jogando num grupo de amigos legais e que já conhecem melhor como funciona o jogo, nosso amigo 100% novato não fica tão perdido porque pode tirar conosco as centenas de pequenas perguntas dúvidas que um novo jogador tem (o que é o dragão e o barão? E o blue? E o red? O que é jungle? O que é smite? Como sei que equipamentos comprar? Pra que servem runas? Como funcionam essas masteries? O que é ward? Quem vai contra mim nesse time? Onde é esse “bot”?). Mas e quem começa realmente sozinho? 

Nem 120 partidas contra bots preparam um jogador para a selva de crueldade que é o PvP de League of Legends.

Acredito que a Riot tentou o melhor que pôde para dar uma idéia beeem inicial de como funciona o jogo nos seus tutoriais, apesar de saber que eles são curtos e semi-inúteis no preparo de alguém para uma partida de verdade, mas também entendo que seria difícil convencer pessoas a começarem o jogo passando por um tutorial de 10h de duração, antes de poder jogar com outros seres humanos.

Acontece que League of Legends é simplesmente complicado demais para explicar num tutorial aceitável e, por conta dos milhões de jogadores com contas smurf, o curso normal do jogo, dentro do qual o novo player evoluiria lentamente e aprenderia de maneira natural como as coisas funcionam, na base da tentativa e erro (e pesquisas no google) como deve ser, se torna inexistente.

A idéia de que um jogador antigo que fez uma conta nova pode chegar no território que, por direito, é dos iniciantes e exigir que todo mundo saiba exatamente o que fazer na partida, além de abusar verbalmente e ameaçar reportar quem não o faz, é tão lógica quanto um universitário que grita com crianças da alfabetização porque elas lêem devagar demais.

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Retrato fiel da realidade.

O conselho natural para isto seria “vai treinar com bots até se sentir preparado pra jogar com humanos no PvP”, mas sejamos realistas: nem 120 partidas contra bots preparam um jogador para a selva de crueldade que é o PvP de League. E olha que eu nunca nem cheguei a jogar uma partida ranqueada na minha vida, já que elas só existem depois do Level 30 e eu perdi minha sanidade mental bem antes de chegar no 20, na minha primeira tentativa.

O argumento dos jogadores mais experientes é que “depois do bronze isso melhora”, o que não é bem verdade e, mesmo que fosse, como usar isto pra convencer alguém que ainda nem chegou ao Level 10 a continuar jogando, na esperança de que um dia melhore?

“GG time lixo”

Depois de algumas partidas de LoL, tudo que a sua mãe te ensinou sobre “o que importa não é ganhar, e sim participar, tentando o seu melhor” é completamente invalidado e substituído pela mágoa da derrota e a vergonha da constante humilhação que agora domina o seu coraçãozinho.

A única opção aceitável é a vitória, solo sagrado onde ainda existe possibilidade de erros serem perdoados ou esquecidos. Na derrota ou no caminho que leva a ela, muitas vezes traçado antes mesmo do início da partida, os pontos onde podem surgir desentendimentos profundos entre os membros de um time são tantos (da tela de seleção de campeões, onde você pode ser ver impedido de jogar na única posição que sabe, até o chat pós-partida, quando você pode ser apontado por um “companheiro” como o motivo da derrota do mesmo) que cada jogo é uma prova de fogo pro estômago de qualquer um que tenha sentimentos.

Sua vontade depois de ser rechaçado por cada erro seu durante quatro partidas de 45 minutos.

Acontece que, independente do egoísmo de tantos players, League of legends é, por definição, um jogo de equipe. É aí que ele brilha e é só assim que você pode de fato brilhar nele. E equipes deveriam compreender que motivação e coordenação não nascem de desentendimentos e apontamento de dedos.

Justamente por isso fica tão difícil perdoar aquele maldito player que resolve começar o caos com um comentário claramente fadado a causar discórdia, como “Esse FDP pediu top só pra feedar a Fiora” ou outros casos tão comuns onde se crucifica alguém que cometeu um erro de maneira claramente não-intencional, como:

  • O server cai em uma partida não ranqueada e o jogador volta, depois de 5 minutos de total desespero tentando resolver o problema pra não atrapalhar o time: “REPORTA ASHE FDP QUE FICOU BASE!”;
  • O jogador acabou de pegar Smite, vai testar jogar de jungle e morre para um monstro: “REPORTA WARWICK LIXO!”;
  • A pessoa vai de support, faz o melhor que pode (pra proteger um total desconhecido), erra 1 (um) stun e o inimigo dá double kill: “MORGANA FDP FEEDER DA P****! REPORTADA!”;
  • Uma alma caridosa vai ajudar alguém a matar o adversário de lane e, sem querer, dá o último golpe: “SAI DA MINHA LANE FDP! VAI ROUBAR KILL NA CASA DO CAR****”;

E irônico que um novato seja apontado como burro e incapaz, muito mais cedo do que seria “aceitável”, justamente pela pessoa que, em um mundo disneylândico ideal, deveria ter a sabedoria da experiência e aproveitaria a oportunidade de ensinar, garantindo um ponto honra ao fim de cada partida por “trabalho em equipe” ou por ser “amigável”, independente de vitória ou derrota.

Feeding the love

Falando assim dos jogadores de League of Legends, parece que eu estou caindo em uma generalização infantil, mas é claro sei que existem muitos players educados, solícitos e que não sentem prazer em humilhar novos (ou quaisquer) jogadores. No entanto, também não podemos cair na ilusão clássica de que a culpa nunca é nossa.

Ao falar dos problemas da comunidade de LoL, sempre acabamos jogando toda a responsabilidade na entidade disforme dos “jogadores tóxicos”, dos “trolls”: aqueles que são imaturos, negativos, destrutivos e mal educados SEMPRE. Mas essa mania de não enxergar nossos próprios erros é um dos principais problemas do jogo. Afinal, se eu não sou um troll, também tenho direito de reclamar aqui e ali, porque tem gente muito pior. Agora imagine que a maioria dos jogadores pensa exatamente assim.

Atrás do anonimato dos nossos nomes de invocador, muitas vezes parece aceitável nos comportarmos como imbecís, mas adivinha só: não é.

Assistindo uma palestra da Riot Games sobre o comportamento dos jogadores de League of Legends, acabei esbarrando em uma informação muito útil e um pouco inesperada. Aparentemente, só 1% da comunidade (na época) era formada por jogadores frequentemente reportados e cujo comportamento não parecia melhorar. No entanto, apenas 5% das ações de natureza tóxica (tóxico porque além de ser negativo, é uma negatividade contagiosa) de todo o jogo eram de responsabilidade destes jogadores que enxergamos como a fonte de todo o mal em LoL.

Adivinha quem é responsável por assustadores 77% das ações que acabam transformando uma partida legal em uma partida horrível? Os bons jogadores. E sabe por que? Porque aquela “uma vezinha” que você resolveu reclamar e apontar dedo pro seu “mid feeder” conta sim, e conta MUITO, quando você faz parte da esmagadora maioria.

Fonte: slide roubado de uma apresentação da Riot Games.

Fonte: print de slide roubado de uma apresentação da Riot Games.

Atrás do anonimato dos nossos nomes de invocador, muitas vezes parece aceitável nos comportarmos como imbecís, mas adivinha só: não é. No calor do momento esquecemos que frases como “pelo menos ajuda no barão, seu lixo” raramente servem como incentivo e motivação para o membro de uma equipe.

Comportamentos positivos em partidas, ao contrário do que pensamos, também são virais. No momento em que você elogia o honestamente desempenho de alguém do time em uma ação que vai ser positiva para toda a equipe, esta pessoa fica orgulhosa e agradecida, passando a ser menos propensa a te xingar e ficando um pouco mais inclinada a ser gentil e colaborativa. É tipo rage, só que ao contrário. E a própria Riot Games garante que equipes assim ganham bem mais jogos.

Todo mundo deve ter uma lembrança particularmente boa de uma partida onde as coisas caminharam bem: você errou e te ajudaram, você pediu desculpas e aceitaram, você falou que ia ajudar e agradeceram, você acertou sua ultimate e te parabenizaram, você conseguiu roubar o dragão do inimigo e todo o time comemorou… Este tipo de lembrança é o que nos motiva a continuar jogando partida após partida, pra melhorar e ter mais vitórias épicas, mais momentos de glória em equipe, mais pentakills na base inimiga.

É por partidas assim que, apesar do rage, dos jogadores cruéis e mal educados, das críticas impiedosas e de todas as inúmeras derrotas, eu vou continuar me esforçando para ser uma jogadora positiva e, dessa vez, eu vou continuar jogando League of Legends.

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Katiucha Barcelos

Exemplo máximo de pessoa que atira melhor na vida real do que em jogos de FPS e eterna entusiasta de RPGs (principalmente os japoneses). Feminista feliz e fã incondicional de Mulan. É perdidamente apaixonada por jogos de tática e sonha em ser paga para assistir vídeos de gatos o dia inteiro.

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