Life is Strange: quando me descobri Max Caufield Escrito por @Katiucha em

Vou começar esse artigo com uma confissão vergonhosa: quando primeiro ouvi falar em Life is Strange, eu não achei nada demais. O poster não me chamou atenção e o plot de viagem no tempo (apesar de sempre divertido) não parecia tão surpreendente. Assim, eu fui ignorando a existência do jogo até onde pude. É claro que a cada nova imagem divulgada isso se tornava mais e mais difícil, até que eu tive um momento de iluminação espiritual e cedi aos encantos do demo assim que ficou disponível na PSN.

Como não se apaixonar por essa iluminação?

O jogo começa e, imediatamente, eu noto como a atmosfera lembra a daqueles filmes de arte que não são chatos e pretensiosos (sim, eles existem). Alguns minutos se passam, a Max coloca os fones de ouvido pra escutar “To all of you” da banda Syd Matters e, de repente, eu percebo o quanto aquele jogo é especial. É desnecessário dizer que, minutos depois, eu estava comprando o season pass e me lamentando internamente sobre como o segundo episódio demoraria para ser lançado.

Mas a beleza de Life is strange não está nos gráficos da Unreal Engine, não está nos superpoderes, nem somente na trilha sonora genial. Ela está nos personagens.

Conhecendo Max

Na maioria das vezes, personagens bem construídos estão acima de gráficos e mecânica na minha escala de importância. Nesse sentido, o que foi feito em Life is Strange é impressionante. Eu poderia escrever um artigo sobre cada um dos personagens centrais da trama mas este aqui é sobre Maxine Caulfield já que, para mim, um bom protagonista é decisivo na hora de escolher um jogo.

Max é um personagem altamente relacionável e, quanto mais eu penso nisso, mais eu vejo que ela é um dos maiores coringas de baralho sentimental que eu já vi em jogos. Perdendo, é claro, para personagens que se arriscam muito pouco, como o protagonista de Journey. Afinal, é fácil demais projetar sua personalidade em alguém que não fala, não tem sexo definido e nem uma história clara.

Max: sempre flutuando entre o papel de alter ego e melhor amiga.

O próprio Jean-Maxime Moris, co-fundador da Dontnod e diretor criativo de Life is Strange, diz que a maneira como o jogador conhece Maxine é planejada para que haja o máximo possível de identificação.

Realmente acredito que durante sua criação alguém falou “esta personagem precisa ser o tipo de pessoa que jogaria Life is Strange, porque isto é exatamente o que acontece. Max é fã de Akira, assistiu Final Fantasy: Spirits Within, ouve músicas indie, se sente deslocada na escola, se mudou de cidade, adora fotografia e sofre bullying. Ela não sabe de tudo, é desligada, já fugiu de situações com as quais não soube lidar e tem problemas de auto-confiança.

Lembranças imediatas dos meus 11 anos de idade, quando fui assistir Spirits Within com meu irmão, ambos animados porque iríamos ver Final Fantasy no cinema.

Lembranças imediatas dos meus 11 anos de idade, quando fui assistir Spirits Within com meu irmão, ambos animados porque iríamos ver Final Fantasy no cinema.

O tipo de gente que gosta de um jogo como Life is strange pode até não ser todas essas coisas. Mas, certamente, a grande maioria é alguma delas. O melhor é que esses traços são colocados de maneira tão real, tão sem medo, que mesmo uma pessoa que só se identifica com um deles vai sentir, em menor grau, a mesma coisa que eu: um sentimento chamado “Caramba! Eu sou a Max!“.

…um sentimento chamado “Caramba! Eu sou a Max!

Talvez você, leitor, seja a Max que bisbilhota o Facebook de outras pessoas e guarda provas fotográficas de situações suspeitas, enquanto eu sou a Max que perdoa quem me maltratou e esconde informações porque não confia na competência das autoridades. O que importa é que, de um jeito ou de outro nós dois somos ou, em algum momento da vida, fomos a Max.

Descrevendo o jogo certo com as palavras erradas

Atribuo grande parte do meu desinteresse inicial por Life is Strange à maldita pessoa que me falou “Ah! É um jogo sobre viagem no tempo”. Não me leve a mal. Eu amo tramas de viagem no tempo. O problema é que este é um tema que já foi tão utilizado, que os criadores precisariam ser geniais pra tornar aquilo algo novo e impressionante. Assim, naturalmente, eu esperei uma grande decepção.

Esse pessimismo só tornou ainda mais especial o momento em que eu vi que Life is Strange não era sobre viagem no tempo, mas sim sobre uma aventura nas nossas lembranças daquele caminho miserável entre a infância e a idade adulta. Aquela jornada tragicômica em que não existe um caminho 100% correto e onde, eventualmente, nos pegamos desesperados, achando que tomamos todas as decisões erradas.

Em Life is Strange, assim como na vida, algumas decisões são realmente difíceis.

A dontnod já havia usado uma mecânica de viagem no tempo em Remember Me e resolveu criar um jogo inteiro baseado nela. A mágica aconteceu no momento em que, nas palavras da própria equipe, eles se perguntaram “Que história queremos contar e como podemos usar essa mecânica para contá-la?“.

Pode passar desapercebido, mas a verdade é que existe um abismo de diferença entre um jogo que usa a viagem no tempo para contar uma história, e outro que inventa uma história como desculpa para usar a viagem no tempo. Um abismo que separa uma trama possivelmente genérica de algo que tem potencial para marcar a vida de alguém. É por esse pensamento inicial que Life is Strange se destaca da massa produtos com enredos similares e passa a se estabelecer muito mais como uma viagem dentro de nós mesmos.

Life is Strange não é sobre viagem no tempo, mas sim sobre uma aventura nas nossas lembranças daquele caminho miserável entre a infância e a idade adulta.

Apesar da história de fundo levemente megalomaníaca e potencialmente catastrófica, dentro da qual você parece ter a missão tão comum de salvar a cidade ou o mundo, para mim, o que se destaca no jogo é o sentimentalismo. É sensação de estar vivendo, junto com a Maxine, aquele momento decisivo da vida em que cada episódio acaba no pôr do sol (metáfora clássica para momentos de transição) e começa com uma Max que está um passo mais próxima da pessoa que ela realmente nasceu para ser.

Os momentos que definem quem você é

Sendo assim, Life is Strange não é (apenas) sobre salvar o mundo. Ele é sobre a beleza inegável da imaturidade de alguém que está começando a se descobrir. Sobre ser adolescente e saber que, se pudesse voltar no tempo, antes de evitar a segunda guerra mundial, você usaria seu poder para tirar 10 em todas as provas e para ajudar seu melhor amigo a conquistar aquela garota.

“My powers might not last, Chloe.” – “That’s okay — we will. Forever.”

Porque quando se é jovem é difícil enxergar a insignificância do nosso mundinho frente a todas as coisas gigantescas que movem a humanidade nesta ou naquela direção. Tudo é importante demais, doloroso demais, especial demais, inesquecível demais. E tudo bem. Essa é a mágica da vida. Entre todos os erros e acertos bobos dos nossos 15 ou 20 e poucos anos, acabamos construindo algumas das nossas melhores memórias – daqueles momentos que não podemos, nem queremos voltar atrás.

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Katiucha Barcelos

Exemplo máximo de pessoa que atira melhor na vida real do que em jogos de FPS e eterna entusiasta de RPGs (principalmente os japoneses). Feminista feliz e fã incondicional de Mulan. É perdidamente apaixonada por jogos de tática e sonha em ser paga para assistir vídeos de gatos o dia inteiro.

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