Mass Effect e a xenofobia: o que a convivência com aliens nos ensina sobre ser humanos Escrito por @Katiucha em

Uma amiga (que não joga videogame) entra no quarto e me vê jogando Mass effect:

– Que bicho feio é esse?

– É o Garrus. Minha personagem vai ficar com ele…  ♥

Com esse pássaro?! E pode?

Naquela hora me ocorreu que, em algum ponto da minha vida, eu mesma poderia ter soltado essa frase. Digo isto porque, visualmente, a idéia destes dois seres totalmente diferentes, como um casal, é bizarra:

Acho que nem todo mundo aceita esse romance tão fácil assim.

Não, Garrus, acho que nem todo mundo aceita esse romance tão fácil assim.

No entanto, aquilo me parecia perfeitamente aceitável e semi-natural. Mas por que? Quando eu comecei a pensar assim? Naquele momento eu percebi, com muita alegria, que o contexto do jogo havia questionado meus valores a ponto de me cegar completamente para os conceitos clássicos do que é normalsemelhante ou possível em termos de relações sociais.

Um “joguinho de videogame” quebrando paradigmas sociais até na cabeça de alguém como eu, que me considerava tão progressista… Que lindo é poder estar viva para testemunhar este momento glorioso!

A barreira da estética

Antes de começar a jogar a trilogia, me recordo de ter visto, de relance, alguém jogando uma cena com o Wrex. A única coisa que consegui pensar foi “Meu Deus, quem é que escolhe colocar uma coisa dessas no time? O personagem além de horrível, ainda é bruto, egoísta e mal educado!”. Logo no começo do jogo, pude “conhecer pessoalmente” o krogan e quebrei a cara. Que personagem sensacional, que amigo fiel e, meu Deus, que vergonha de tê-lo julgado mal por tão pouco!

…nosso carinho por eles acaba ultrapassando, por muito, a tão mistificada barreira da estética.

Da mesma maneira, eu costumava dizer que Salarians eram uma raça altamente antipática e detestável. Poderia jurar que eu nunca conseguiria me obrigar a gostar de verdade deles. E aí eu conheci salarians como Mordin Solus. E quebrei a cara de novo.

Também passei grande parte do jogo desejando que existisse uma maneira rápida de eliminar completamente os Geth, porque era impossível confiar em qualquer forma de inteligência artificial. E, felizmente, quebrei a cara mais uma vez.

Urdnot Wrex: não exatamente o personagem que você criaria para inspirar simpatia.

Urdnot Wrex: não exatamente o personagem que você escolheria para inspirar simpatia imediata.

Era maravilhoso ver como ME se utilizava desta dificuldade de identificação imediata, que poderia ser um problema, de maneira muito inteligente: construindo a cultura e o caráter destes personagens de maneira tão crível e compreensível, que nosso carinho por eles acaba ultrapassando, por muito, a tão mistificada barreira da estética.

E que outro artifício inspiraria tanta empatia por culturas tão diferentes da sua, quanto a convivência constante com membros daquelas raças que frequentemente conversam sobre coisas do dia a dia e de suas histórias, seja durante missões, a bordo da nave ou durante longos loadings dentro de elevadores?

I’m Commander Shepard and this is my favorite family on the Citadel.

Eventualmente, percebi que eu já não me importava apenas com os meus amigos ou com a minha tripulação. Ao ouvir sobre ou conhecer outras raças, eu partia de um ponto totalmente diferente de antes. Eu partia da humildade. Mesmo que não fossem nem remotamente humanóides, como os Hanar, mesmo que parecessem ardilosos e inconfiáveis, como os Volus, mesmo que se expressassem de maneira bizarra, como os Elcor.

A certa altura da história, o jogador passa a abrir mão daquele protagonismo soberbo com o qual estamos tão acostumados, que diz que se eu sou o personagem principal, esta é a minha história e eu sou a prioridade. Isto acontece porque percebemos o óbvio: que o universo é muito vasto e ele não orbita ao nosso redor.

A beleza da insignificância

Ao meditar sobre a grandiosidade do Cosmos, temos uma sensação de pequenez que funciona como uma lição absurda de humildade: afinal, se somos uma parte tão minúscula do universo, por que achamos que somos tão importantes para o Todo? Mass Effect responde isto da brilhante maneira que nos recusamos a cogitar: não somos.

Somos apenas uma raça que chegou ao centro político da galáxia (usando uma tecnologia que não é nossa) muito tardiamente e que, afinal, não oferece nada de tão novo ou imperdível àqueles que já estavam estabelecidos desde bem antes de sairmos da primitividade das nossas cavernas. Não somos melhores que ninguém.

the crew

A diversidade dos nossos aliados é o que torna tão incrível e lendária a tripulação da Normandy.

Em uma esfera menos sci-fi da vida, podemos ter a sabedoria de levar essas valiosas lições para nossa própria convivência em sociedade, onde tantas vezes costumamos nos considerar superiores a outros povos e culturas, de maneira etnocentrista e arbitrária.

É da altura de toda a nossa arrogância e ignorância que nos sentimos no direito de julgar ou tratar com hostilidade tantos daqueles que, uma vez que cheguemos à tão sonhada era espacial, finalmente serão vistos como o que são: o mesmo que todos nós, o coletivo pelo qual seremos julgados, a nossa raçaos humanos.

A brilhante trilogia de jogos nos ensina que, apesar da nossa natureza impetuosa e do nosso curto ciclo de vida, temos potencial. Nós, seres humanos, podemos até mesmo realizar feitos lendários mas, assim como Commander Shepard, jamais conseguiremos sozinhos.

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Katiucha Barcelos

Exemplo máximo de pessoa que atira melhor na vida real do que em jogos de FPS e eterna entusiasta de RPGs (principalmente os japoneses). Feminista feliz e fã incondicional de Mulan. É perdidamente apaixonada por jogos de tática e sonha em ser paga para assistir vídeos de gatos o dia inteiro.

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