O valor da sorte nos jogos de estratégia Escrito por em

Falar sobre elementos de sorte em qualquer meio competitivo de jogos costuma ser o suficiente para se ver cabeças rolando e facas voando de uma ponta a outra do ambiente que se estiver. Isto porque grande parte dos jogadores condenam elementos de sorte em quaisquer jogos por serem “anti-estratégicos” e por botar a vitória do jogo sobre “forças do além”, e não no controle do jogador (é mais fácil culpar o desenvolvedor do que a si próprio pela derrota).

O fato é que estes elementos não estão presentes nos jogos por acaso. Eles servem para melhorar a experiência do jogo de diversas maneiras, seja do lado mais casual e divertido, seja do mais competitivo e estratégico.

Sorte de iniciante

Imagine a seguinte cena: um amigo seu comprou um jogo novo, treinou incansavelmente durante um mês e agora te chama para jogar umas partidas. Você aceita e, cinco miseráveis minutos depois, se dá conta do quão não-divertido é jogar algo onde simplesmente não existem chances de ganhar.

Aqui entra a primeira e mais óbvia função do elemento da sorte nos jogos, bastante presente em títulos que investem em multiplayer local, onde o propósito é não garantir a vitória, mas oferecer condições para que o jogador menos experiente tenha alguma chance de ganhar, aproveitando para facilitar seu processo de aprendizagem sobre o jogo.

Há de se reconhecer que, a não ser que estejamos falando de uma situação onde todos os jogadores têm experiência e nível competitivo, isto deixa a jogatina mais divertida para todos, já que também não é nada divertido jogar quando não se corre o risco de perder.

Não se trata apenas da dificuldade do título, mas do reconhecimento de que, em jogos deste tipo, o fator surpresa traz consigo um aumento significativo no fator diversão.

Surprise, motherfucker

O Bullet Bill (também conhecido como aquele-míssil-super-apelão-de-Mario-Kart) é um exemplo clássico de item que não apenas dá aquela ajuda na partida, como também auxilia o jogador que está perdendo (feio) a explorar melhor o funcionamento das mecânicas.

Itens overpower como este, quando colocados nas mãos dos últimos lugares, tornam o resultado final da partida bem menos previsível e aumentam a adrenalina no jogador mais experiente, que passa a lutar com mais afinco para proteger a sua honra da ameaça de ser derrotado por um novato.

Muitos desses elementos de sorte não servem apenas para criar uma igualdade de condições, eles podem definir todo o funcionamento de um jogo.

O valor da imprevisibilidade

“Boa sorte é o que acontece quando a oportunidade encontra o planejamento.”

O que Thomas Edison quis dizer com estas palavras é que as probabilidades só podem definir determinado resultado, se sua preparação permitir isto. Coisa que muitas comunidades de jogos tendem a negar.

Títulos como Mario Kart ou Smash Bros podem ser jogados sem itens e sem o fator de sorte, ainda se qualificanto como ótimos jogos. O “problema” é que assim eles se tornariam, respectivamente, um jogo de corrida e um jogo de luta, perdendo uma parte imensa do seu potencial como jogos estratégicos, o que não é necessariamente ruim. Tudo depende do que se espera deles.

smash bros

Entre em um campeonato de Smash Bros. Sugira uma fase que não seja Final Destination. Corra por sua vida.

É claro nem todos os jogos baseados em estratégia têm que ter elementos de sorte. Xadrez, Damas e outros jogos do tipo são alguns exemplos disto. Agora pensemos: o que é que todos, ou boa parte destes jogos, têm em comum?

Achou? Não? Deixa eu dizer: todos eles oferecem uma completa e irrefutável igualdade de condições. Isto porque o jogo vai se equilibrar por si. Acontece que oferecer tal igualdade pode ir contra a intenção de muitos jogos onde o objetivo não é apenas ter uma boa partida, mas estar bem preparado para qualquer tipo de adversário.

serious

Pokémon é coisa séria.

Pokémon é o mais notório exemplo de como o uso de probabilidades configura toda a estratégia do jogo. A adição de golpes críticos adiciona não uma imprevisibilidade, mas uma condição a mais que requer preparo do outro jogador.

Um bom jogador saberá quais possibilidades estão contra ou a seu favor, e saberá calcular se o risco de tal movimento vale sua possível recompensa. Não basta conhecer as suas armas, mas saber as que o adversário tem a sua disposição e estar preparado para elas.

hangover

Eu jogando pokémon.

Mas claro que Pokémon não é o único exemplo. Podemos aplicar isso a também a Mario Kart. O tão odiado casco azul garante que os jogadores apenas tomem a frente se estiverem confiantes de sua habilidade em manter uma longa distância ou de escapar dele com um item obtido anteriormente.

O jogo entre posições, onde uma posição mais atrás lhe garante itens melhores, mas te dá desvantagem na corrida e adiciona o risco de simplesmente não conseguir um item que vá te salvar, exige muito mais estratégia do que se as condições não fossem estas.

Games

Certíssimo

Dominar as possibilidades e esperar o imprevisível deve estar na mente de qualquer jogador! É curioso que isto seja visto com tanta negatividade em jogos eletrônicos, enquanto jogos como pôquer, com campeonatos mundiais e uma fanbase ampla e bem estabelecida, encaram este fator com bastante naturalidade: sabe-se que o resultado final será definido muito mais pelo preparo do jogador do que por sorte ou azar.

Saber construir planos e estratégias em cima de probabilidades de sucesso frente a adversidades é o que faz de alguns jogos fontes quase infinitas de diversão, garantindo horas e horas de tudo menos tédio.

Gostou do texto? Ajude a espalhar o nosso amor por videogames!

Juni

Formando em Sistemas e Mídias Digitais, descobri que prefiro falar sobre jogos do que fazê-los. Tenho grande interesse na parte de Game Design, Narrativa e Ilustração.

Leia todas as postagens do Junior.