Os jogos físicos como preservação da história Escrito por @macedofelipe em

O mundo todo parece estar em fase de transição do mundo físico para o mundo digital. Filmes e músicas estão em um estágio mais avançado e temos como assistir/ouvir via stream, ou seja, apenas usando a internet. Os jogos de computador, graças ao Steam, principalmente, têm também uma boa aceitação em formato digital entre seus consumidores. Já os consoles de mesa e portáteis sempre deram passos de tartaruga nessa área e só agora, nas duas últimas gerações, é que o jogo em formato digital para essas plataformas começou a crescer de forma significativa. E isso pode representar um perigo imenso para a história.

Falando de forma prática: a Konami lançou em 2014 um teaser jogável (Playable Teaser) de um game novo que seria desenvolvido para o Playstation 4, Silent Hills. O título estava sendo produzido por Hideo Kojima (Metal Gear, Zone Of The Enders, Boktai) e Guillermo Del Toro (Labirinto do Fauno, The Strain), porém houve alguma desavença entre Hideo Kojima e Konami e o jogo foi simplesmente cancelado.

Vale lembrar que nesses games estão contidos os esforços de dezenas ou até mesmo centenas de pessoas

O cancelamento de qualquer game por si só já é uma péssima notícia, mas pelo que P.T. apresentava, a perda foi maior ainda. Mas pelo menos, teríamos pra sempre alí a demo de algo que um dia representou a colaboração e união de duas grandes mentes, ou era isso que a maioria de nós pensávamos. Fomos então surpreendidos com a notícia de que P.T. seria retirado da Playstation Store e quem até então não tinha feito o download, não poderia mais fazê-lo. Como se isso não fosse o suficiente, a Sony comunicou que uma vez que P.T. fosse deletado do disco rígido do seu PS4, não seria mais possível fazer o download do jogo.

Sony avisando que P.T. não estaria mais disponível para download até para quem já tinha o título

Sony avisando que P.T. não estaria mais disponível para download até para quem já tinha o título.

Quando isso aconteceu, me lembrei de outros títulos que foram desenvolvidos em parceria entre duas empresas diferentes e que quando a parceria entre as duas terminam, os jogos também desaparecem das prateleiras digitais e físicas, como por exemplo, Marvel vs Capcom. Tudo o que resta são as pessoas que possuem o título em formato digital e as pessoas que compraram a versão física dele. Obviamente, eu entendo que negócios e acordos vem e vão e que isso faz parte do jogo dos tronos, mas eu pessoalmente sinto como se quisessem editar a história. “Sabe aquele game que você adora? Pois é, não existe mais e nem sabemos do que você está falando”.

Não merecemos que um jogo seja apagado da história como se nunca tivesse existido

Eu parto da premissa que todo jogo que é desenvolvido, seja bom ou ruim, precisa ser apresentado e apreciado pelos jogadores justamente para que a indústria tome conhecimento do que produzir e o que não produzir em maior escala. Mas é preciso haver a preservação da história. Pode parecer exagero, mas a própria história da humanidade é cheia de momentos que seria melhor esquecermos e entregar o planeta para os dinossauros mas conseguimos conviver com isso.

Video game é lazer, cultura, arte e não merecemos que um jogo seja apagado da história como se nunca tivesse existido porque duas ou mais pessoas/entidades não chegaram a um acordo jurídico em comum. Vale lembrar que nesses games estão contidos os esforços de dezenas ou até mesmo centenas de pessoas que deram seu melhor para fazer o que enxergavam como um título incrível, mas que por algum motivo, o resultado desse esforço tem um dia para expirar e se tornar apenas lembranças se as coisas continuarem como estão.

Caso possua um jogo físico raro ou que já deixou de ser fabricado, você faz parte da resistência não apenas está com algo que pode valer dinheiro, mas quem sabe, com um artefato que pode ser considerado uma peça de museu. Todo colecionador é um potencial historiador ou pelo menos pode contribuir de maneira positiva.

Eu sei que a nossa realidade não contribui para a preservação pessoal de jogos físicos, já que hoje em dia ter uma mídia física ocupa espaço e se trata de basicamente uma caixa com o game e um simples folder dando alguma informação extra/dlc, bem diferente do que acontecia na época do Super Nintendo e Playstation, fazendo com o que era comum, se tornar uma exceção.

Pode parecer besteira, mas esse é o tipo de coisa que faz diferença pra muita gente na hora de escolher entre cópias físicas e digitais. Felizmente temos algumas empresas que mantém a boa e velha tradição de oferecer manual físico e outros informativos do jogo em suas versões físicas, como a CD Projekt Red com The Witcher 3.

Com tanta coisa assim, dá até gosto de comprar jogo físico. :3

Com tanta coisa assim, dá até gosto de comprar jogo físico. :3

Jogos não possuem apenas um valor comercial, possuem um valor educativo, apresentam game design variado, trilha sonora, inspiração para outros desenvolvedores se desafiarem e apresentarem algo melhor ainda, etc. Com o desaparecimento de títulos que “não deram certo”, seja por qual razão for, quem sai perdendo com isso somos todos nós, jogadores, desenvolvedores e consumidores dessa indústria que tanto amamos.

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Felipe Macedo

Amante dos jogos eletrônicos desde que se entende por gente e criado com o melhor que a geração 8-bits e 16 bits podia oferecer, hoje é formado em Jornalismo e faz de tudo pra unir sua paixão profissional e sua paixão pessoal. Durante sua adolescência aprendeu a amar o pc gaming da mesma forma (ou até mais, lendas dizem) que os consoles dedicados.

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