Um brasileiro na Naughty Dog Escrito por @rurounikz em

Ah, como eu gostaria de trabalhar na [insira aqui sua desenvolvedora preferida].”  Para muitos, essa conquista pode ser um sonho, mas para Glauco Longhi, natural de São Paulo capital e designer de personagem na Naughty Dog, isso é uma realidade. Além dele, outro brasileiro que está empregado na produtora é Leandro Amaral, que executa a função de lighting artist.

Conheci a “fama” de Longhi através de amigos em comuns que mencionavam ocasionalmente o talento do artista, sempre elogiando sua dedicação e empenho nos seus interesses, seja com escultura ou CrossFit. Soube recentemente da oportunidade que surgiu na vida dele e o fez sair do país para trabalhar em uma das desenvolvedoras mais conceituadas da atualidade. Através de alguns e-mails, pude saber um pouco mais sobre a trajetória de Longhi até a responsável por criar The Last of Us, a série Uncharted, Crash Bandicoot, entre outros títulos.

Caso tenha assistido à demonstração de Uncharted 4 exibida durante a conferência da Sony na E3 desse ano (vídeo abaixo), você viu o trabalho do exímio escultor. A estátua do pirata Henry Avery mostrada nos primeiros segundos do vídeo foi feita por Glauco. “Eu participei em diversas partes da demo da E3, mas sem dúvida o que mais chama a atenção foi a estatua do Henry. Infelizmente não posso comentar nada sobre o processo de trabalho lá de dentro, mas foi muito bacana ver meu modelo na entrada da demo ;)

https://www.youtube.com/watch?v=sB0xy74Zrj8

Moldando um sonho em realidade

A conquista profissional de trabalhar na Naughty Dog não veio por acaso e o artista identificou um mercado com alta demanda. Além disso, ele se planejou para que o sonho se tornasse realidade e começou a trilhar seu caminho com uma viagem até os Estados Unidos.

Em dezembro de 2013 resolvi vir aos EUA com o objetivo de entrar em contato com os estúdios de Makeup FX (eu tinha meu próprio estúdio no Brasil), para trocar conhecimentos, ver se conseguia passar um tempo por aqui ajudando e trabalhando em estúdios maiores. Calhou de eu visitar estúdios de games e a minha paixão pelo 3D voltou com tudo. Vi a oportunidade num mercado que está em expansão e resolvi migrar de volta pro computador. Voltei ao Brasil, fechei meu estúdio e me dediquei durante o ano de 2014 de volta ao 3D e consegui a vaga na ND [Naughty Dog].”

O processo de contratação levou cerca de cinco meses e só então Longhi passou a fazer parte de uma das principais desenvolvedoras originalmente fundada em 1984 como Jam Software e que foi renomeada em 1989 para Naughty Dog e hoje possui cerca de 200 funcionários.

Sobre o ambiente de trabalho na empresa, o paulistano parece ter se adaptado bem. “[O clima] definitivamente é muito bom.  A empresa é grande – cerca de 200 funcionários, mas incrivelmente todos parecem se conhecer e se dão bem. Me sinto confortável para falar com qualquer um, mesmo se nunca o vi ou não conversei antes. O clima é bem bacana e amigável.”

Aprender com figuras experientes da indústria e interagir com profissionais extremamente qualificados como Bruce Strateley (game director) e Neil Druckmann (diretor criativo e escritor) com certeza é um dos pontos altos de se trabalhar em uma desenvolvedora grande. E segundo Longhi, Strateley e Druckmann se mostram presentes com frequência. “Interagimos em determinados pontos específicos, em casos de aprovação de algo mais importante. Neil e Bruce estão sempre passeando por todos os times e conferindo a evolução do game ao longo das semanas.

Glauco at Naughty Dog

A ideia de superação e motivação foi como uma extensão do meu dia a dia.

Curiosamente, o lado profissional não é o único aspecto de sua vida em que Longhi é dedicado. Ele começou a praticar CrossFit desde 2013 chegando até a participar de algumas competições da modalidade.

Sempre fiz esportes e o CrossFit foi uma novidade que entrou na minha vida em meados de 2013. Tudo se encaixou, a ideia da superação e motivação foi como uma extensão do meu dia a dia. Acabei levando bem a fundo e me dedicando bastante, treinando 6x por semana. Cheguei até a participar de alguns campeonatos grandes e fiquei bem colocado. 

Apesar de não praticar mais o CrossFit, Longhi carrega boas lembranças do esporte e ainda se exercita entre quatro a cinco vezes por semana. “Hoje me dedico a treinos mais livres com fundamentos em ginástica, argolas olímpicas, e musculação. Acho muito importante o exercício físico, em todos os aspectos e tudo que ele me traz de bom.”

Fiz cursos antes, durante e depois da graduação

Quando questionado sobre sua formação acadêmica, Longhi responde deixando claro a importância que dá para o estudo contínuo. “Sou formado em bacharelado em audiovisual. Fiz cursos de escultura, modelagem, softwares 3D e continuo estudando, fazendo workshops sempre que possível. Fiz cursos antes, durante e depois da graduação.

A busca incessante por melhorar suas habilidades está presente na vida do artista que dividia seu interesse por desenvolver suas habilidades na área com a responsabilidade do seu trabalho fixo. “Assim que comecei a trabalhar com 3D e modelagem, meu interesse por personagens foi crescendo e comecei a desenvolver meu portfolio e objetivos paralelo ao trabalho diário (motion graphics). Com o tempo, fui melhorando e novas oportunidades com personagens foram surgindo.

Adepto de cursos online, o escultor dá cursos em escolas sobre escultura e oferece também materiais sobre o tema. Dentre esses conteúdo , Longhi disponibiliza alguns gratuitamente, como é o caso do vídeo apresentando ferramentas e técnicas básicas. Além desse, ele publicou outro vídeo, que pode ser obtido por 10 dólares, e descreve o processo de escultura do busto de um idoso. O realismo e atenção aos detalhes do trabalho do artista (foto abaixo) realmente impressionam. Para saber mais, acesse o Gumroad de Glauco Longhi.

busto old dude

Um artista com alma empreendedora

Apesar de ter um trabalho fixo atualmente, Longhi tinha um estúdio antes de sair do país. Segundo ele, a chama para ser o dono de seu próprio ganha-pão sempre o fascinou. Sempre tive vontade de ter meu negocio próprio, e tenho mente/alma de empreendedor. Gosto do desafio de tocar um próprio negócio. Gosto de planejar e fazer cronogramas, de certa forma, correr riscos é bem interessante [risos].

O artista fala da trajetória de sua empresa de forma resumida, mas se orgulha da experiência que obteve tocando um negócio que começou sozinho e teve uma alta demanda, o que só reflete a qualidade do seu trabalho. “Resumindo a história, eu trabalhava em produtoras, saí, fiquei de freelancer e depois de um tempo abri meu próprio estúdio. Peguei projetos grandes para filmes e produtoras grandes em São Paulo.”

Como só tinha dois funcionários (Longhi e mais um), no caso de projetos grandes aparecerem, ele contratava mais pessoas para dar conta dessa demanda pontual. “Foi um imenso aprendizado e tenho muito orgulho de ter iniciado a jornada e encerrado no pico máximo de trabalhos (o que pode soar bem estranho, mas talvez seja a minha paixão por novos desafios o que me levou a “mudar” de área novamente).

Estátua Bloodborne

Tenha autocrítica para avaliar o próprio trabalho

Costumo terminar minhas conversas com desenvolvedores questionando a pessoa entrevistada sobre quais conselhos ela daria para alguém que está começando, ou no caso de Longhi, pretende seguir seus passos e sair do país para trabalhar em uma grande desenvolvedora. Primeiro, seja realista e pé no chão. Estude bastante e tenha auto crítica para avaliar o próprio trabalho e planejar novas metas. Sempre sonhe bem alto e corra atrás dos sonhos. Eu não sou o primeiro e nem serei o último a sair, então este caminho é possível de se percorrer, assim como dezenas de artistas fizeram o mesmo.

Assim como sua jornada ao exterior foi algo planejado, ele incentiva o planejamento, preparação e dedicação para tornar um sonho realidade. Dê tempo ao tempo. Isso não acontece da noite pro dia. Tenha personalidade, estude inglês (óbvio) e prepare-se, não somente com a parte profissional, mas com a conduta de modo geral. Muitos artistas têm trabalhos excelentes mas infelizmente tem uma personalidade muito ruim e difícil, e até chegam a fazer entrevistas em grandes empresas mas o pessoal acaba cortando a oportunidade. Aprenda a trabalhar em time e ouvir criticas.

Para encerrar essa entrevista com um último conselho, o escultor deixa claro o valor da experiência diária no trabalho.”Procure estágio em produtoras e comece a adquirir experiência profissional o quanto antes. Isso é muito válido pois o aprendizado no dia a dia é completamente diferente de uma escola.

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Eduardo Emmerich

Engenheiro (elétrico) em formação. Narrative Designer. Editor assistente da Ivalice. Never give up. Trust your instincts! #HYPE

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