Xbox One – o vilão que se tornou um heroi Escrito por @macedofelipe em

O dia em que um novo console é apresentado oficialmente para a indústria e seus consumidores é certamente um dia memorável para muitos. O dia 21 de maio de 2013, dia do anúncio oficial do Xbox One, foi um dia pra ficar na memória, mas não tão positivamente quanto esperado pelos desenvolvedores do console e também pelos seus consumidores. O grande motivo foi o fato de que o anúncio focou muito mais no que o XOne poderia fazer na sua sala de estar do que se esperava dele: ser um console dedicado a jogos. Como a internet é um lugar escuro e cheio de terrores, não demorou a aparecer diversas piadas e memes (pérolas como XBOX TV, TV, SPORTS, TV, TV, TV, DOGS) nos maiores fóruns da internet, redes sociais e sites de vídeos. Mas até aí tudo era muito compreensível porque eles queriam passar um novo conceito de vídeo game, algo não só pensado no jogador, mas para toda a família e seu lazer.

Don Mattrick apresentando para o mundo o novo Xbox.

O grande problema realmente veio depois, quando apresentaram o que seria necessário para o XOne funcionar em toda sua plenitude. Quer levar o console pra passar o carnaval/semana santa/feriadão jogando em algum lugar sem acesso a internet? Esqueça. Xbox One precisa de um check-in a cada 24 horas. Caso isso não fosse feito, seus jogos ficariam desabilitados até que o console conseguisse conectar-se à na internet. Quer emprestar seus jogos físicos? Esqueça também. Todos os jogos, físicos ou digitais ficariam atrelados à sua conta e seus jogos só poderiam ser transferidos uma vez pra uma única pessoa caso ela estivesse na sua friendlist há mais de 30 dias. E sem retorno pra você. Mora no Japão e quer comprar o XOne antes do lançamento oficial no seu país? Tome trava de região na cara.

Essa época não foi nada fácil para a MS e nem para sua fanbase.

Essa época não foi nada fácil para a MS e nem para sua fanbase.

Esses dias provavelmente foram maravilhosos para as empresas desenvolvedoras de jogos, pois numa só martelada conseguiriam diminuir drasticamente a pirataria do console — e consequentemente dos seus jogos e matariam o comércio dos jogos usados ou mesmo acabariam com o hábito de emprestar jogos físicos, algo ainda bem presente nos dias de hoje. Nem preciso dizer que isso foi o pesadelo na Terra principalmente para os fãs do antecessor do XOne, né? Eu mesmo, dono de um Xbox 360, mas já certo de que não iria comprar o próximo console da Microsoft antes mesmo de tudo que foi apresentado, fiquei atordoado com isso tudo. Como era possível?

Menos de 3 semanas depois que tudo isso foi apresentado (e de muito feedback negativo por parte dos consumidores), tivemos a nossa tão amada E3 e a promessa cumprida de que o evento seria totalmente dedicado a games, diferente do que aconteceu quando o console foi mostrado pela primeira vez. Jogos como Killer Instinct, Sunset Overdrive, Project Spark, Titanfall e outros jogos foram apresentados e serviços como Games With Gold (mesmo esquema da Playstation Plus, receber dois jogos gratuitos por mês) e parcerias com Twitch.tv para fazer streaming diretamente do console foram anunciados. Tudo sensacional, exceto o finalzinho da apresentação que mostrou o preço do console: $499. Enquanto aqui no nosso país, um console que sairia por volta de R$1.200 (convertendo com o dólar da época (que saudades dessa época) sem contar com impostos e custo Brasil) seria BEM tentador, esse preço não foi tão bem aceito na terra do Tio Sam.

Tudo sensacional, exceto o finalzinho da apresentação que mostrou o preço do console: $499

Para piorar a situação da Microsoft, a Sony apresentou seu novo console, Playstation 4, e mostrou também que quase tudo o que o Xbox One poderia fazer, o PS4 poderia também fazer e melhor. Além de inovar, Sony também soube preservar no PS4 aquilo tudo que os consumidores queriam, como a possbilidade de emprestar e revender seus jogos a vontade, jogar no video game sem a necessidade de fazer check-ins diários e sem a maldita trava de região. O tiro de misericórdia do PS4 nesse dia foi quando os executivos da Sony mostraram como é simples de emprestar um jogo para um amigo, diferente do que aconteceria no novo console da Microsoft.

https://www.youtube.com/watch?v=kWSIFh8ICaA

Oh, boy. Esses foram dias maravilhosos até mesmo pra quem não era fã da Sony e um pesadelo para o time da Microsoft. Em questão de um pouco mais de uma semana após a E3 de 2013, o número de pessoas interessadas por um Playstation 4 cresceu vertiginosamente e aparentemente já tínhamos um vencedor dessa geração que mal tinha começado, quando a equipe do Xbox One resolveu voltar atrás com a maioria de suas novas políticas. Esqueçam o novo esquema de jogos usados, a questão de emprestar jogos, check-in a cada 24 horas e trava de região. Tudo voltou a ser como era no Xbox 360. Claramente uma vitória dos consumidores, mas que ainda deixou muita gente com um gosto amargo na boca porque seus sentimentos foram feridos, e isso foi demonstrado, por exemplo, na Evolution Championship Series, EVO, no momento que o nome do novo console da Microsoft apareceu em um vídeo de Killer Instinct, que apresentava um novo personagem.

Sim! Até Jar Jar Binks era mais amado que o Xbox One.

Sim! Até Jar Jar Binks era mais amado que o Xbox One.

Ainda em 2013, muitas outras transformações e confirmações de rumores agradaram os possíveis consumidores e desenvolvedores do console, como a possibilidade de ter o Kinect desligado quando não estivesse em uso, mudança em sua política com desenvolvedores independentes que agora não precisariam mais de uma produtora responsável para lançar seus jogos no console e o uso de placa de captura externa. Nesse meio tempo antes de lançar o Xbox One oficialmente, a MS também investiu no que podia no processador gráfico como uma resposta ao hardware do PS4, embora eles afirmassem (e afirmam até hoje) que o importante é a diversão provida pelos jogos e não a resolução. Wii feelings

Levando em consideração todas as transformações que o Xbox One passara, o que mais a Microsoft poderia fazer?

Uma semana após o lançamento do Playstation 4, foi a vez do Xbox One mostrar a cara em Novembro de 2013 nos Estados Unidos, mas enquanto era razoavelmente comum encontrar o novo Xbox nas prateleiras, as notícias diziam que o Playstation 4 se tornava um item cada vez mais raro de se encontrar. Os números da época também não estavam mentindo, o Playstation 4 estava vendendo mais que o Xbox One nos Estados Unidos, um milhão e duzentas mil unidades a mais. Definitivamente um grande baque para a Microsoft que conseguiu vencer seu principal concorrente na geração passada por uma larga margem em questão de vendas nos Estados Unidos, 48.46M contra 29.19M de acordo com VGChartz, mesmo com todos os problemas de hardware que as versões iniciais que o Xbox 360 tinham. Levando em consideração todas as transformações que o Xbox One passara, o que mais a Microsoft poderia fazer?

2014

O ano de 2014 não começou muito bem para a divisão do Xbox One, que via cada vez mais o Playstation 4 estabelecendo seu reinado em número de vendas. Não bastasse isso, os jogos multiplataformas iniciais mostravam as diferenças de hardware dos consoles, mostrando que havia mais jogos 1080p no PS4 do que no Xbox One, que apresentava comumente a resolução de 900/720p. Além disso, pipocavam notícias de que os investidores da MS não estavam satisfeitos com andar da carruagem e queriam por um fim nisso. Mas a Microsoft não se deu por vencida e elevou seu cosmo ao sétimo sentido.

Marc Whitten, então responsável pela divisão, (Don Mattrick tinha saído da MS em Julho de 2013 para ocupar um lugar de CEO na Zynga, empresa que produz jogos como FarmVille e MafiaWars, e outros games pra mobile/redes sociais) saiu da MS para ocupar um cargo em uma empresa chamada Sonos em março de 2014, e o novo responsável pela divisão seria Phil Spencer (<3) que antes comandava a Microsoft Studios.

Bendito seja Phil Spencer! :3

Bendito seja Phil Spencer! :3

Não que Marc Whitten não tenha feito um ótimo trabalho no curto período que esteve à frente da divisão, mas Phil Spencer deu um novo fôlego ao console, por já ser uma figura mais conhecida e carismática. Além das mudanças constantes que o Xbox One passava para apresentar um desempenho melhor, Phil Spencer é alguém que está sempre próximo dos seus fãs (pelo menos via Twitter) e que vez ou outra dá alguma informação relevante em conversa com outros usuários.

Sob a supervisão de Phil, a MS anunciou um novo pacote do Xbox One sem o Kinect agora com outro valor, $399, ou seja, competindo de igual para igual com o Playstation 4. Em consequência ao corte de preço, a procura pelo console aumentou nos Estados Unidos.

Na E3 de 2014 o X1 também fez bonito apresentando games como Forza Horizon 2, Fable Legends, Ori and The Blind Forest, Halo 5, Halo: The Master Chief Collection, Phantom Dust (que talvez me faça comprar um XOne, se ele realmente for exclusivo do console), Scalebound e um dos jogos/assuntos que mais deu o que falar na época: Rise of the Tomb Raider, que apareceu como exclusivo. Mas logo, por pressão esmagadora dos fãs não donos de um Xbox One, na minha opinião, Phil revelou que se trata apenas de uma exclusividade temporária.

Uma flechada no coração de todos que esperavam um novo Tomb Raider multiplataforma logo de início.

Uma flechada no coração de todos que esperavam um novo Tomb Raider multiplataforma logo de início.

Ainda pouco tempo depois da E3, Phil apresentou o site Xbox Feedback, local em que usuários poderiam deixar sugestões, propostas e ideias para melhorar o Xbox One por meio de serviços e aplicativos, além de criar também um laço maior entre usuários e desenvolvedores do console. Ah, se a Nintendo toda empresa pensasse dessa forma. Além de já oferecer o serviço Games With Gold, a Microsoft fechou uma parceria com a EA e lançou o EA Access, que é algo similar também ao serviço da MS e Sony, mas voltado para somente para os jogos da EA.

Para fechar o ano de 2014 com chave de ouro, no segundo semestre a Microsoft compra Mojang, a empresa que criou Minecraft (“só” um dos jogos mais jogados do mundo, se você não é ligado em jogos ou vive em outro planeta), além de cortar $50 temporariamente da versão Xbox One sem Kinect e conseguir triplicar as vendas do console, em comparação com as semanas anteriores. Mas mesmo com esse boost de vendas e a aquisição da Mojang, o X1 continuava a comer poeira do PS4, que estava conseguindo se distanciar (em número de vendas mundiais) cada vez mais. O que mais a divisão Xbox poderia fazer para derrubar o titã Playstation 4?

Não tava fácil pra Microsoft.

2015

O ano de 2015 parece ser o ano em que a MS está partindo realmente dicumforça contra a Sony e toda sua glória. Embora o início do primeiro semestre tenha contado com apenas alguns boatos de que a Rare (a mesma que desenvolveu jogos como a trilogia Donkey Kong Country, Battletoads e Conker) finalmente mostraria um novo jogo de sua autoria, o anúncio de Forza Motorsport 6 e o anúncio de que os jogadores de Xbox One poderão jogar alguns títulos juntamente com os usuários de pc, além de realizar streaming pra qualquer aparelho com Windows 10, Phil estava confiante com a E3 deste ano, pois focaria principalmente em jogos firsty party do console.

Além de grande interação entre Windows 10 e Xbox One, alguns jogos terão opção de cross-plataform

Além de grande interação entre Windows 10 e Xbox One, alguns jogos terão opção de cross-plataform,

Dito e feito, a Electronic Entertainment Expo deste ano definitivamente entrou para a história das E3, especialmente então para a história do Xbox. Para quem não acompanha os novos consoles, Playstation 4 e Xbox One não suportam retrocompatibilidade devido a mudanças de sua arquitetura que agora é mais próxima da de computadores, etc. Bem, esse agora não é mais um problema do Xbox One, já que os engenheiros da empresa conseguiram desenvolver um método de que os jogos da geração passada, tanto versão física quanto digital funcionem no Xbox One com todas as novidades que o console pode oferecer, como gravar vídeos, fazer streamings e tirar screenshots. Claro, não são todos os jogos da biblioteca do Xbox 360 que já estão acessíveis, até o final do ano serão cerca de 100 títulos, mas a ideia é expandir cada vez mais essa biblioteca.

Lembra que falei que em 2013 a Sony alfinetou a MS com a história dos jogos emprestados/usados? Pois é, dessa vez quem alfinetou foi a MS dizendo que era injusto cobrar o jogador duas vezes pelo mesmo jogo, fazendo clara referência ao Playstation Now, serviço de streaming online de jogos do Playstation 3 (até agora) que pode ser usado no PS4, PSVita e algumas SmarTVs, mas que cobra o jogador independente dele ter o jogo em versão digital ou não.

https://www.youtube.com/watch?v=3PMjqmggn_o

Mas Microsoft não parou por aí na E3, também apresentou um novo controle (totalmente customizável e agora também com entrada P2 para fones comuns) novos títulos first e third party, como ReCore (de Keiji Inafune (Megaman) e alguns desenvolvedores da época de Metroid Prime), Plants vs Zombies Garden Warfare 2, Dark Souls 3, Gigantic, Ashen, Beyond Eyes, Rare Replay (uma coletânea de 30 jogos da Rare), Sea of Thieves (finalmente uma IP nova da Rare!!1!), Gears Of War Ultimate, Gears Of War 4 e vários outros jogos.

Não bastasse a retrocompatibilidade e a lista fulminante de jogos que a MS apresentou, ela colocou em ação também (e ao vivo) o Microsoft Hololens, um sistema de realidade virtual que faz um uso incrível de Minecraft. É difícil explicar, melhor você mesmo ver o Hololens em ação. *heavy breathing*

https://www.youtube.com/watch?v=xgakdcEzVwg

Oh boy. Que notícias maravilhosas que nós consumidores recebemos da MS. Essa é a parte boa da concorrência, querer oferecer o que a rival não oferece e elas ficarem se digladiando pra ver quem oferece mais e melhor. Só quem ganha somos nós consumidores. Será talvez o fim dos jogos ou pelo menos a diminuição de títulos “Definitive Edition”, jogos que vieram da geração passada e receberam algumas melhorias e atualizações? Difícil dizer, mas pelo menos é uma boa notícia para os donos de quem tem um 360 (e um Xbox One), que agora poderão guardar/vender alegremente seu console antigo.

Olha ae, Sheldon! Mais um ponto positivo para levar um xonão pra casa!

Eu não tenho um Xbox One e não tenho (muita) pretensão de ter um, mas tenho certeza que quem tem um Xbox One hoje em dia se sente muito orgulhoso pelo que ele é capaz de fazer. As transformações pelas quais o console passou desde que seu conceito foi apresentado ao público até os dias de hoje (e muitas novidades estão por vir, se continuar nesse ritmo de atender o pedido dos consumidores) são quase inacreditáveis. É incrível que, graças ao feedback dos fãs/consumidores (e a ajuda de péssimas vendas), um console tenha mudado tanto, e para melhor.

É incrível que, graças ao feedback dos fãs/consumidores (e a ajuda de péssimas vendas), um console tenha mudado tanto, e para melhor.

O Playstation 4 (ainda) lidera o número de vendas globais e também fez bonito na E3 de 2015, mas a MS foi a primeira a ouvir o que seu consumidor queria dessa geração: retrocompatibilidade. Se a diferença de vendas entre as duas plataformas vai diminuir, eu não sei, mas podemos dizer que nós consumidores conquistamos uma grande vitória. E que a concorrência para oferecer o melhor serviço (e quem melhor ouve seus fãs/consumidores) continue!

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Felipe Macedo

Amante dos jogos eletrônicos desde que se entende por gente e criado com o melhor que a geração 8-bits e 16 bits podia oferecer, hoje é formado em Jornalismo e faz de tudo pra unir sua paixão profissional e sua paixão pessoal. Durante sua adolescência aprendeu a amar o pc gaming da mesma forma (ou até mais, lendas dizem) que os consoles dedicados.

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